Parashá Noach

Parashá Noach

PARASHÁ NOACH - A ARCA, O DILÚVIO E O RECOMEÇO NOACH ISH TZADIK - O JUSTO EM SUA GERAÇÃO

"E estas são as gerações de Noach: Noach era homem justo, íntegro em suas gerações" (Bereshit 6:9).

Rashi, o maior comentarista, traz duas leituras que parecem contraditórias e são complementares:

a) Se fosse em uma geração de justos como Avraham, Noach seria ainda mais justo.

b) Em comparação com sua geração perversa, ele era justo, mas diante de Avraham não seria considerado tanto.

O Midrash explica: Noach é chamado de justo porque guardava a porta. Enquanto todos roubavam, corrompiam e violavam, Noach não se contaminou. Mas o Zohar pergunta: por que ele não salvou a geração como Avraham salvou Sodoma?

Por isso a Torá diz "em suas gerações" - ele foi justo para si, mas não foi um líder que transformou os outros. Avraham discute com D'us. Noach se cala e constrói a arca. Daí aprendem os sábios: há dois tipos de tzadik. O tzadik que se preserva e o tzadik que ilumina os outros. Noach foi o primeiro.

2. POR QUE 120 ANOS PARA CONSTRUIR A ARCA?

D'us diz: "Farei trazer dilúvio" (6:17), mas manda Noach construir a arca por 120 anos.

O Midrash Rabá diz: D'us fez Noach plantar cedros, cortar, secar, serrar, tudo em público. As pessoas passavam e perguntavam: "O que você está fazendo?" E ele respondia: "D'us trará dilúvio porque a violência tomou a terra". Eles riam. Mas era uma última chance de teshuvá. A arca foi um púlpito.

Cada martelada era um chamado ao arrependimento. Isso nos ensina que D'us não pune sem avisar. A justiça Divina sempre dá tempo.

3. O DILÚVIO - MABUL: ÁGUA QUE APAGA E ÁGUA QUE PURIFICA O mundo da geração do dilúvio tinha chegado a um nível de chamas - em hebraico, chamas vem de chamas, roubo.

O Talmud em Sanhedrin 108a diz: o decreto só foi selado por causa do roubo, porque quando tudo é roubado, não há mais convivência humana possível. O Mabul não foi apenas chuva. Foram 40 dias e 40 noites. O número 40 na Torá é sempre purificação: 40 dias de Moshe no Sinai, 40 anos no deserto, 40 se'ah de mikvê. O mundo entrou na mikvê para nascer de novo. As águas de cima e as águas de baixo, que foram separadas no segundo dia da Criação, se uniram novamente. Dentro da arca estavam Noach, sua esposa, seus três filhos Sem, Cam e Yafet, e as esposas deles. E todos os animais.

O Midrash diz que Noach não dormiu por um ano inteiro dentro da arca, alimentando cada animal em sua hora. O leão comia à meia-noite, a girafa de manhã. Ele se tornou o primeiro a praticar chessed - bondade - com todas as criaturas. Para sair do dilúvio, precisava aprender a cuidar.

4. A POMBA E O CORVO - OS DOIS MENSAGEIROS Noach solta primeiro o corvo. O corvo não volta, fica voando em círculos. Rashi explica que o corvo acusou Noach: "Você me odeia, por isso me mandou, pois sou impuro". O corvo representa quem foge mas fica preso na destruição. Depois ele solta a pomba, a Yoná. A pomba não encontra descanso. Na segunda vez, volta com um ramo de oliveira no bico.

O Midrash pergunta: de onde veio a oliveira se tudo foi destruído? Da terra de Israel, que não foi coberta pelo dilúvio, dizem os sábios. Ou foi a oliveira que cresceu milagrosamente, dizendo: prefiro amargo da mão de D'us do que doce da mão do homem. Na terceira vez, a pomba não volta. É o sinal de que a terra já pode ser habitada. A pomba é o símbolo do povo de Israel: busca um lugar de paz e só descansa quando encontra terra firme.

5. AS SETE LEIS DE NOACH - O PACTO UNIVERSAL Ao sair da arca, D'us faz um pacto não só com Noach, mas com toda a humanidade. Esse é o Brit Noach. D'us mostra o arco-íris - Keshet - como sinal: "Não destruirei mais o mundo com água". A partir daqui, o Talmud em Sanhedrin 56a deriva as Sete Leis de Noach, que são obrigatórias para todos os não-judeus:

  1. Não idolatrar
  2. Não blasfemar
  3. Não matar
  4. Não cometer adultério e imoralidades sexuais
  5. Não roubar
  6. Estabelecer tribunais de justiça
  7. Não comer membro de animal ainda vivo Quem cumpre essas sete leis por reconhecer que foram dadas por D'us a Noach, diz o Rambam, tem parte no Mundo Vindouro e é chamado de Chassid Umot HaOlam - um justo entre as nações.

6. O VINHO DE NOACH E A MALDIÇÃO DE CAM Noach planta uma vinha, bebe e se embriaga. O Midrash diz que Satanás veio e matou um cordeiro, um leão, um macaco e um porco sobre a videira: quando bebe um pouco, fica manso como cordeiro; um pouco mais, forte como leão; mais um pouco, faz palhaçadas como macaco; e se beber demais, se suja como porco. Cam vê a nudez do pai e não o cobre. Sem e Yafet andam de costas e o cobrem. Por isso Noach amaldiçoa Canaã, filho de Cam. Os sábios perguntam: por que Canaã e não Cam? Porque Canaã viu primeiro e contou ao pai Cam. A maldição não é racial, é moral: quem desonra a dignidade humana, quem expõe o outro em sua fraqueza em vez de cobrir com compaixão, esse cria gerações de escravidão.

7. TORRE DE BAVEL - O FIM DA PARASHÁ Os homens se unem para construir uma torre para fazer guerra contra D'us. Rashi diz que eles tinham uma língua só, com propósito único. D'us não destrói a torre, Ele confunde a língua. Por quê? Porque unidade para oprimir, para se fazer um nome contra o Céu, não é unidade. É idolatria. D'us quer diversidade com harmonia, não uniformidade com arrogância. Daí surgem as 70 nações e as 70 línguas. E da família de Sem, nasce Avraham, que começará o conserto do mundo. LIÇÃO ETERNA DE NOACH: Noach nos ensina que mesmo quando o mundo inteiro está corrompido, um homem pode ser uma arca. Que às vezes D'us precisa nos colocar dentro de uma arca apertada, escura, cheia de barulho de animais, para nos ensinar a cuidar um do outro. E que depois de todo dilúvio, D'us coloca um arco-íris no céu para dizer: vale a pena recomeçar.